A agropecuária é um dos setores fundamentais da economia global, responsável por fornecer alimentos, fibras e energia para a população mundial. No entanto, junto com seu papel crucial na produção de alimentos, ele também enfrenta desafios ambientais significativos. Um dos principais está relacionado às emissões de gases de efeito estufa (GEE) provenientes das atividades do ramo.
A emissão de gases de efeito estufa (GEE) pela agropecuária, como o dióxido de carbono (CO2), o metano (CH4) e o óxido nitroso (N2O), tem sido um ponto de discussão importante.
Diante desse cenário, o Plano ABC e iniciativas como a Rede Pecus da Embrapa destacam-se como esforços do Brasil para adotar práticas agropecuárias mais sustentáveis. O conceito de Carne Carbono Neutro (CCN) surge, então, como uma resposta inovadora, baseada em sistemas silvipastoris e agrossilvipastoris que sequestram o carbono, compensando as emissões de metano dos animais.
A CCN, pioneira no mundo, não só valoriza a qualidade e o bem-estar animal, mas também impulsiona a competitividade do setor pecuário brasileiro.
Se esse assunto te interessa e você quer saber mais sobre como a CCN pode ajudar em uma produção mais sustentável, contribuindo para um mundo mais verde, então continue acompanhando a leitura!
Os principais desafios enfrentados pela agropecuária
Compreender os desafios que a agropecuária enfrenta no contexto das emissões de gases de efeito estufa é fundamental antes de abordarmos as ações para reduzir esses impactos.
A criação de gado é conhecida principalmente pela liberação de metano durante o processo digestivo dos animais, mas seus impactos vão além. Por exemplo, as fezes desses animais emitem óxido nitroso (N₂0), um composto com grande potencial para contribuir com o efeito estufa. Para se ter uma ideia, uma molécula de N₂0 equivale a 310 moléculas de dióxido de carbono (CO₂).
Além das emissões diretas dos animais, há também impactos indiretos que geram controvérsias. A metodologia utilizada em diferentes relatórios pode levar a interpretações diversas. Enquanto alguns estudos consideram apenas as emissões diretas, outros incluem fatores como queimadas e desmatamentos para criar novas áreas de pastagem ou plantio, além da produção agrícola destinada à alimentação dos animais de corte.
Por exemplo, o relatório “A Longa Sombra da Pecuária”, da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) em 2006, revelou que cerca de 97% do farelo de soja e 60% da produção global de cevada e milho são destinados para alimentar animais de corte.
Essas diferentes abordagens metodológicas resultam em grandes divergências nos números apresentados. Enquanto a FAO indicava em 2006 que a pecuária representa 18% das emissões de gases do efeito estufa geradas pelo homem, um estudo de 2009 do Worldwatch Institute, organização de pesquisa sobre os impactos das mudanças climáticas, apontou esse número para 51%. Essas variações significativas dependem de diversos fatores e demonstram a complexidade do tema.
Os desafios no Brasil
No cenário nacional, essa tendência se mantém. Segundo o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima, as mudanças no uso do solo, incluindo desmatamentos e queimadas, aliadas à agropecuária, são responsáveis por 71% das emissões do país, ou seja, o desafio é encontrar formas de reduzir essas emissões sem comprometer a produtividade e a sustentabilidade da produção agropecuária.
É nesse contexto que surgem iniciativas como a Carne Carbono Neutro, que busca neutralizar as emissões de metano dos animais através de práticas sustentáveis de manejo e sistemas integrados como o ILPF.
Carne Carbono Neutro (CCN): a solução brasileira para uma questão global
A CCN surgiu, então, como uma resposta inovadora a esses desafios ambientais enfrentados pela agropecuária. No contexto histórico marcado pelo aumento da preocupação ambiental e pela necessidade de práticas mais sustentáveis, a CCN se destacou como uma iniciativa pioneira.
Como surgiu?
O surgimento da CCN está ligado a iniciativas como o Plano ABC, lançado em 2010, que visava estimular tecnologias mais eficientes na agropecuária para mitigar as emissões de GEE. A partir desses esforços, a Embrapa liderou a Rede Pecus em 2011, focada em estudos para desenvolver práticas sustentáveis na pecuária.
O conceito da CCN foi formulado em 2012, baseado em sistemas de produção capazes de neutralizar ou compensar as emissões de metano dos animais em pastejo por meio do sequestro de carbono pelas árvores.
Esse sistema, conhecido como silvipastoril ou agrossilvipastoril, não apenas contribui para a redução de emissões, mas também melhora o ambiente, proporcionando microclima favorável, conforto térmico animal e maior valor nutritivo do capim.
A CCN foi oficialmente lançada em 2015 com diretrizes para:
- Manejo da pastagem
- Suplementação alimentar
- Bem-estar animal
- Monitoramento do carbono do solo
Sua validação envolveu estudos socioeconômicos e ambientais em diferentes biomas brasileiros, culminando na certificação da CCN em 2020.
Essa marca-conceito não apenas impulsiona a produção sustentável de carne, mas também agrega valor ao produto e à propriedade do produtor, além de contribuir para a reputação internacional do Brasil como líder em práticas agropecuárias sustentáveis, como você vai ver a seguir.
Práticas e benefícios da CCN
O funcionamento das práticas da CCN envolve diversos aspectos.
Suas práticas incluem:
- Integração pecuária-floresta: Implementação de sistemas silvipastoris e agrossilvipastoris, onde árvores são integradas às pastagens para sequestro de carbono.
- Sequestro de carbono: Árvores presentes na pastagem capturam carbono da atmosfera durante seu crescimento, contribuindo para a redução do efeito estufa.
- Microclima favorável: Árvores fornecem sombreamento aos animais, reduzindo o estresse térmico e melhorando o conforto durante os períodos de calor.
- Melhoria do solo: O sistema radicular das árvores melhora a estrutura do solo, aumentando sua capacidade de retenção de água e nutrientes.
- Diversificação da produção: Além da carne, a presença de árvores permite a produção de madeira e outros produtos florestais, agregando valor econômico ao sistema.
- Manejo integrado: Praticar manejo sustentável, como rotação de pastagens e controle de invasoras, para garantir a eficiência e sustentabilidade do sistema.
- Bem-estar animal: Seguir diretrizes específicas para garantir o bem-estar dos animais, a qualidade da carne e a conformidade com padrões de certificação.
- Monitoramento constante: Indicadores ambientais e econômicos são monitorados regularmente para avaliar o desempenho do sistema e identificar oportunidades de melhoria.
Essas práticas integradas da Carne Carbono Neutro representam um avanço significativo em direção à produção agropecuária mais sustentável e resiliente às mudanças climáticas.
Já os benefícios econômicos são:
Maior valor agregado
A produção de Carne Carbono Neutro agrega valor ao produto final. Além disso, ela é associada a práticas sustentáveis e ambientalmente responsáveis.
O que, então, pode resultar em preços mais atrativos no mercado.
Diversificação de produtos
Além da carne, o sistema integrado permite a produção de madeira e outros produtos florestais. Isso diversifica as fontes de renda da propriedade e cria oportunidades adicionais de negócios.
Redução de custos
Práticas sustentáveis, como o uso eficiente de recursos naturais e a reciclagem de resíduos, podem levar a uma redução nos custos de produção a longo prazo.
Acesso a mercados exigentes
A certificação da Carne Carbono Neutro pode abrir portas para mercados mais exigentes, que valorizam a sustentabilidade e a responsabilidade ambiental. Isso pode aumentar as oportunidades de exportação e parcerias comerciais.
Como está a situação da CCN hoje?
Atualmente, a situação da Carne Carbono Neutro (CCN) reflete um cenário global em que a sustentabilidade e a mitigação das emissões de gases de efeito estufa (GEE) são temas cada vez mais prioritários. A implementação do protocolo da CCN avançou significativamente desde sua concepção, destacando-se alguns pontos relevantes:
Demanda Internacional Crescente
A CCN tem despertado interesse e gerado uma grande demanda por informações em nível internacional. Países como Austrália, Nova Zelândia e diversos países da América Latina estão adotando iniciativas semelhantes para produzir carne carbono neutro em prazos definidos, demonstrando uma tendência global em direção à sustentabilidade na pecuária.
Parcerias Estratégicas
A parceria entre a Embrapa e a Marfrig Global Foods foi fundamental para aprimorar os estudos relacionados à CCN e incorporar boas práticas em toda a cadeia produtiva, desde o manejo das pastagens até o processamento da carne nas unidades frigoríficas.
Essa colaboração resultou no lançamento bem-sucedido da Carne Carbono Neutro® no mercado nacional em 2020 e na preparação para sua entrada nos mercados externos, além da criação da marca Carne Baixo Carbono®.
Valorização e Competitividade
A certificação da CCN e a adoção do modelo de monitoramento-relato-verificação (MRV) têm conferido maior credibilidade e competitividade à pecuária brasileira. Isso se reflete não apenas na valorização dos produtos certificados, mas também na reputação do país como um produtor comprometido com a sustentabilidade ambiental e a qualidade dos alimentos.
CCN e o Impacto das Políticas Públicas
As políticas públicas, como o Plano ABC+ e a legislação sobre serviços ambientais e créditos de carbono, têm impulsionado o setor agropecuário a adotar práticas mais sustentáveis. Essas iniciativas não apenas incentivam a redução das emissões de GEE, mas também criam oportunidades para os produtores obterem ganhos adicionais e se destacarem em mercados exigentes.
No contexto atual, a Carne Carbono Neutro representa não apenas uma conquista tecnológica e ambiental, mas também uma oportunidade para o Brasil se posicionar como um líder em sustentabilidade na produção de carne, agregando valor aos produtos, promovendo a competitividade do setor e contribuindo para a preservação do meio ambiente.
Como obter o selo de certificação da CCN
Para obter o selo Carbono Neutro (CCN) para carne, os produtores devem seguir algumas etapas e critérios estabelecidos pelas diretrizes da certificação. Até este texto ser escrito, a única empresa que pode utilizar essa denominação é a Marfrig, parceira da Embrapa no desenvolvimento do CCN desde 2018.
O selo CCN pode ser utilizado para carnes bovinas frescas, congeladas ou transformadas, para mercado interno e para exportação.
Aqui está um guia geral de como conseguir o selo:
Adoção de Práticas Sustentáveis
O primeiro passo é adotar práticas sustentáveis na produção agropecuária, como a integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) ou o sistema silvipastoril, que inclui a presença de árvores na pastagem.
Avaliação das Emissões de Carbono
Os produtores precisam realizar uma avaliação técnica das emissões de carbono na propriedade, levando em consideração fatores como a quantidade de animais, o tipo de manejo das pastagens e o uso de insumos.
Cálculo do Carbono Fixado e Neutralizado
É necessário calcular a quantidade de carbono fixado pelas árvores na área e a capacidade de neutralização das emissões de metano. Isso envolve medições precisas e métodos aceitos pela comunidade científica internacional.
Garantia do Estoque de Carbono
Os produtores devem manter e aumentar o estoque de carbono na propriedade ao longo do tempo. Dessa forma, eles contribuem para a mitigação das emissões de gases de efeito estufa.
Solicitação de Certificação
Após cumprir todos os requisitos e preparar a documentação necessária, os produtores podem solicitar a certificação Carbono Neutro junto às entidades responsáveis, que geralmente são instituições independentes ou órgãos governamentais.
Auditoria e Verificação
Após a solicitação, então, uma auditoria e verificação da propriedade garantem que todas as práticas e critérios da certificação estão sendo seguidos corretamente.
Recebimento do Selo CCN
Por fim, uma vez aprovada a certificação, o produtor recebe o selo Carbono Neutro (CCN) para sua carne, que atesta a conformidade com as práticas sustentáveis e a neutralização das emissões de metano, agregando valor ao produto no mercado.
A CCN e a Esperança Agrossilvipastoril
Esperamos que você tenha aprendido sobre a Carne Carbono Neutro (CCN) e sua relevância na agropecuária sustentável. De fato, vimos como a CCN surgiu como uma resposta inovadora aos desafios ambientais do setor.
Assim, destaca-se pela neutralização das emissões de metano, o bem-estar animal e a valorização das práticas sustentáveis.
Ao longo do tempo, a CCN evoluiu e se tornou uma certificação reconhecida internacionalmente. Consequentemente, abriu portas para a exportação e agregou valor aos produtos pecuários.
Os produtores que adotam o conceito CCN contribuem para mitigar as mudanças climáticas e se posicionam como líderes em práticas responsáveis e eficientes.
Portanto, se você se interessa por sustentabilidade na agropecuária e quer saber mais sobre como a Carne Carbono Neutro está transformando o mercado, explore os recursos disponíveis sobre a Esperança.
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